
As vozes de Hipnos tornaram-se distantes, quase inaudíveis.Após um longo sono, envolvida pelo cobertor e pelo acalanto de uma madrugada fria, a casa se movia.O lugar suspirava, despertando do repouso sepulcral, espalhando sua vida cômodo a cômodo,tateando rodapés,pulsando paredes,acendendo luzes e apagando despertadores.
O relógio digital indicava sete e meia,pontualmente.Abri vagarosamente os olhos,pestanejando,adaptando-me á luz.Mexi um dedo, depois o outro,então,movi o pé.Estalei os dedos da mão,molhei os lábios,espirrei e inclinei a cabeça.Percebi que os raios brigavam para ocupar cada milímetro do meu aposento.A janela estava totalmente aberta,apenas com a cortina cor-de-rosa encobrindo seu arreganhamento desavergonhado.Afastando a coberta, sentei-me e contemplei a claridade.
Parecia que havia adormecido por alguns meses,quase hibernado.Levantei,deixando as vozes melodiosas de Hipnos junto com as cobertas.Seu sussuro não mais alcançava meus ouvidos,nem suas lamúrias seduziam minhas pestanas.Fui até o parapeito,afastando as cortinas.Observei o concreto e mármore, apreciando os poucos pontos a cidade que conseguia enxergar.
Minha cidade, minhas ruas,minhas esquinas,minhas praças.Não havia muito movimento, alguns poucos carros defloravam o espreguiçar morno e sonolento da minha casa.As pessoas caminhavam molemente, os pássaros cantavam e o Sol aquecia os cantos outrota encobertos pelas graças da penumbra e pelos mistérios das trevas.
Sentada, observando,lembrei da sombra que vira na outra noite.Uma sombra.Uma premonição?Afogada em monólago travestido de conversa, refletia sobre o ocorrido.Ele havia sido engolido pela cidade.A cidade,meu amor!Meu primeiro amor, minha casca..meu abrigo.Uh,teria que dividir aquela deliciosa sombra com o abraço da cidade.Que fosse,então.
Poderia até não vê-lo mais, contudo,estaria certa que as ruas tomariam conta daquele esboço, que ninariam aquele contorno nas noites mais profanas e que amadureceriam o espírito indolente daquele ser.Compartilharia a sombra que me atirou no sono com meu primeiro amor; a cidade.
Sorrindo, estava pronta pra descer do parapeito,meu posto costumeiro,quando juro- eu juro!-ouvi um relincho.Vinha de longe.Olhei pro céu,abestalhada.E vi.A visão mais bela de toda minha vida:Apolo, o deus mais belo, em sua Carruagem de Fogo,sendo puxada gentilmente por corséis velozes e meigos.Sua graciosidade espantava qualquer vestígio dos encantos de Hipnos,a luz do Sol era tão nítida e avassaladora...Movendo-se lentamente, a Carruagem levou consigo os rastros da minha noite,da minha madrugada de Hipnos.
Mordi o lábio,rindo,preenchida, com aquela promessa de Alvorada em meu coração.
Abri a porta e saí.
Pra cozinha,pra rua,pra faculdade,pro cinema,pros amigos,pra cidade,pro mundo.
*It feels so good to be back.
